O NOME DA ROSA

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Itália, novembro de 1327. O frei Guilherme de Baskerville e o noviço Adso de Melk chegam a uma abadia, no topo de uma montanha, para participar de uma reunião que ocorrerá em alguns dias entre franciscanos apoiados pelo imperador e membros importantes da Igreja Católica representando o Papa João XXIII.

Por sua inteligência e incrível raciocínio lógico, Guilherme recebe do abade (autoridade máxima da abadia) um pedido inusitado: investigar a morte misteriosa de um jovem monge, ocorrida no dia anterior. Mas já no dia seguinte acontece outra morte.

O frei e o noviço começam uma investigação que aos poucos vai revelando uma história sinistra que envolve sodomia, paixões e ciúmes, monges com passado obscuro, a biblioteca e um livro especial, escrito em grego.

Guilherme ainda trabalha com inúmeras hipóteses e suspeitos quando ocorre a terceira morte. É o terceiro dia. Mais quatro ocorrerão, uma por dia, eliminando os principais suspeitos. Quem, ou o que, afinal, está por trás delas?

Os monges ficam apavorados, pois acreditam na ação do demônio. É a Idade Média, período de profundo obscurantismo, ignorância e poder absoluto da Igreja Católica Apostólica Romana.

A reunião entre os franciscanos e a legação do Papa João XXIII se aproxima e promete ser tensa. A Igreja, sedenta pelo acúmulo de bens e poder e promotora da queima de “hereges”, não aceita a opção dos franciscanos de viver na pobreza absoluta, como fez seu inspirador, São Francisco de Assis. Considerados hereges, correm sérios riscos de serem condenados à morte pela fogueira da Santa Inquisição.

Frei Guilherme, sempre usando a sua lógica impressionante, resolve o mistério, mas não consegue evitar um fim trágico.

Primeiro romance do professor e teórico italiano Umberto Eco (1932-2016), O Nome da Rosa é muito mais que um thriller de suspense. Na verdade, os assassinatos são o pano de fundo para ilustrar uma época em que o conhecimento, a ciência e, principalmente o questionamento, eram fortemente combatidos pela Igreja Católica, tão poderosa a ponto de intervir na administração dos governos e condenar pessoas à morte.

A Igreja Católica era a guardiã da Verdade Absoluta e inquestionável. E considerava herege qualquer um que questionasse e se revoltasse contra ela.

A narrativa de O Nome da Rosa é impecável, os diálogos ricos em detalhes e questões filosóficas, e o debate entre a razão (representada pelo frei Guilherme de Baskerville) e a cegueira dogmática (representada pelo velho monge Jorge de Burgos), é um dos pontos altos do romance.

Mais que um livro, é um clássico da literatura do século passado. Não por acaso, desde o seu lançamento em 1980, foi traduzido em diversos idiomas. No Brasil, foi relançado em 2016, com uma edição revista e ampliada e com texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

“Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus.” 🌹

BRASIL: UMA BIOGRAFIA

Um país estranho, cheio de contradições, permanentemente instável e longe de amadurecer; um dos primeiros a introduzir a fotografia e o telefone, mas o último a abolir a escravidão; foi a única monarquia das Américas; teve um Imperador erudito numa terra de analfabetos e tem uma república que inaugurou a tradição golpista; é moderno em algumas regiões e absurdamente atrasado em outras. Seu nome: Brasil.

Este livro conta essa história. Não a dos livros chatos do MEC, cuja versão é sempre conveniente ao governo da vez, mas a verdadeira – aquela que moldou e continua moldando o caráter do povo brasileiro.

Trata-se de uma biografia que narra seu nascimento e seu crescimento conturbado, cheio de sofrimento, de lutas, de revoltas, de golpes, de censura e de assassinatos. Muitos assassinatos, fato que derruba o mito de que o povo brasileiro é pacífico. Mas conta também sobre suas conquistas, suas vitórias, seu progresso, suas artes, sua música e seu lento processo de democratização.

Heloísa Murgel Starling e Lilia Moritz Schwarcz escreveram este livro fascinante. Ele prende a atenção do leitor, mesmo que este não seja afeito à História do Brasil. Com linguagem fácil e rico em ilustrações, Brasil: uma biografia não se prende ao amontoado de datas como nos livros didáticos do ensino fundamental; explica com todos os detalhes o que é esse gigante chamado Brasil, um país cheio de contradições e de incertezas, mas que aos trancos e barrancos vai buscando a sua identidade.

O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

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Ontem terminei de ler uma história arrebatadora que fala de sonhos e de fé, de radicalismo e de subversão, de manipulação e de poder, e de ódio… Muito ódio. Mas de amor também.

“O Homem Que Amava Os Cachorros”, de Leonardo Padura, conta a história real de Leon Trotsky, revolucionário russo que junto a Lenin, em 1917, derrubou o império czarista e fundou a União Soviética; e de Ramon Mercader, espanhol catalão de classe média alta que, influenciado pela própria mãe, lutou na Guerra Civil Espanhola contra o fascismo de Franco, tornando-se um ferrenho defensor do socialismo – o que lhe valeu o grande interesse do governo russo.

Trotsky e Mercader compartilhavam o mesmo ideal socialista mas não se conheciam e nem sabiam da existência um do outro, até que Joseph Stalin, um ser obscuro e sedento de poder, assumiu o domínio da recém-criada União Soviética. Por discordar de Trotsky e por temer sua influência, Stalin o expulsou do país, ao mesmo tempo em que lançou mão de uma poderosa propraganda política acusando-o de traidor do proletariado mundial.

Graças à massificação da propaganda anti-trotskysta, Ramon Mercader passou não só a odiá-lo, mas também a todos os que o seguiam – os trotskystas. Aproveitando-se dessas duas “qualidades” de Ramon – fidelidade às ideias de Stalin e ódio à traição de Trotsky -, o governo de Moscou o incumbiu de entrar para a História: cumprir a sublime missão de matar o traidor do socialismo.

A partir desta incumbência, Mercader começou um paciente e minucioso treinamento para executar com a máxima perfeição – sem que a culpa caísse sobre a União Soviética de Stalin – o crime que o tornaria um herói nacional. Enquanto isso, Leon Trotsky conseguia uma autorização para se exilar no México, sua última morada. Lá ele fez amigos, cuidou de coelhos, escreveu artigos, concluiu livros, foi enganado e… covardemente assassinado.

No meio dessa história real, Leonardo Padura insere Iván, um personagem cubano fictício que numa tarde da década de 1990 está em uma praia, lendo um livro. De repente, ele vê chegar um senhor acompanhado de dois belíssimos cachorros. Interessado neles, cumprimenta seu dono e inicia uma conversa. Iván acabaria por apelidá-lo de “O homem que amava os cachorros”. Os encontros, antes casuais e espaçados, tornaram-se combinados e frequentes. Até que em um deles, o misterioso homem começou a contar para Iván uma história de sonhos e de ódio, de um crime, e de decepção.

Leonardo Padura é um escritor cubano de fama internacional. Seu romance “O Homem que Amava Os Cachorros” foi traduzido em diversos idiomas e ganhou prêmios internacionais. Mesmo sabendo que Trotsky será assassinado por Mercader (afinal, trata-se de uma história real provocada pelo sonho da utopia comunista falecida em 1989), o leitor se prende a cada página do livro, graças à maneira como ele foi escrito: um suspense de tirar o fôlego, um thriller psicológico que envolve também o fictício personagem cubano Iván Cárdenas Maturell.

D. PEDRO II NA ALEMANHA – UMA AMIZADE TRADICIONAL

DOM PEDRO II

D. Pedro II, imperador que governou o Brasil entre 1840 e 1889, fez nesse período quatro viagens internacionais. A última delas teve como destino a Europa, para cumprir o exílio forçado pelos militares golpistas que proclamaram a república. Ao contrário dos que o sucederam, o monarca viajava para ampliar seus conhecimentos de ciências e de tecnologia que em muito ajudaram o país.

Hoje, em qualquer país do mundo, é normal o governante fazer viagens diplomáticas, de negócios e para participar de congressos e cerimônias de posse. Sempre com dinheiro público, é claro, e o máximo interesse em aparecer na mídia. No final, as viagens oficiais pouco ou nada trazem de relevante ao país, por servirem mais como turismo e “política de boa vizinhança”.

Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança, trineto da Princesa Isabel, conta a história enriquecedora das viagens empreendidas pelo seu tetravô em um livro interessante no qual são narradas, em 176 páginas, as viagens à Europa e aos Estados Unidos, onde o Imperador conheceu universidades, indústrias, museus e personalidades importantes como o inventor do telefone Grahan Bell.

O fato do livro ter sido escrito por um membro da família imperial pode deixar a ideia de que a História foi floreada ou inventada. Mas os fatos ali narrados – corroborados por historiadores respeitados como José Murilo de Carvalho – tem comprovação em vasta documentação da época, como o diário de viagens de D. Pedro II. Um dado interessante é que o Imperador as realizou com recursos próprios e nunca com dinheiro público, ao contrário dos nossos presidentes.

“Dom Pedro II Na Alemanha, Uma Amizade Tradicional”, é um livro empolgante especialmente para quem gosta de História e é fã do velho monarca – mas não apenas para esses –, porque mostra o lado culto e humano de um homem que era a autoridade máxima do Brasil mas não se vangloriava disso. Ao contrário, detestava a “pompa e circunstância” que tanto atrai os homens públicos de hoje.

1789 – A história de Tiradentes

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Nas aulas de História do meu tempo de escola, aprendi que Tiradentes foi um dentista barbudo que morreu enforcado em 21 de abril de 1792, traído por um tal de Joaquim Silvério dos Reis. Seu crime: tentar libertar o Brasil dos portugueses. Virou mártir e feriado nacional. E só. Os professores queriam que decorássemos datas e nomes de personagens. O por que dos fatos não importava. A consequência dessa forma de ensinar História era o total desinteresse do aluno, cansado da decoreba. Eu era um deles.

Muitos  anos se passaram até eu ter acesso a livros de História que, embora mencionassem datas e nomes de personagens (afinal, é importante), se preocupavam com os fatos. Ou seja: “por que aconteceu?” Sim, nenhuma revolução acontece sem ter um descontente; todo revolucionário age sob a influência de um fato ou de alguém. Afinal, a reação exige uma ação. Sem esta, aquela não tem razão de ser.

Foi seguindo essa linha que Pedro Doria escreveu 1789, que conta muito mais que a história de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Explica a Inconfidência Mineira; quem estava envolvido e por que se envolveu; e mostra os acontecimentos internacionais da época que influenciaram os inconfidentes. Eles queriam a independência de Minas Gerais, com o possível apoio do Rio de Janeiro e de São Paulo, e não a do Brasil inteiro, como se imagina.

1789 não é um livro chato. Conta uma parte importante da História do Brasil de uma forma que prende a atenção do leitor, deixando-o ansioso pelo desfecho mesmo sabendo que este será o enforcamento de Tiradentes. Ilustrado com fotos e mapas e apoiado na pesquisa séria em farta documentação, o livro de Doria nos faz compreender melhor um Brasil que ainda não deu certo, mas que melhorou muito graças a homens que arriscaram a própria vida por uma luta que não foi em vão.

BELLEVILLE – Há sempre uma palavra que nos une

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Lucius é um rapaz solitário e reservado que vai morar em Campos do Jordão para cursar Matemática. Ao alugar uma casa afastada da cidade, ele descobre em seu terreno uma obra inacabada. Curioso, vasculha o lugar e descobre uma caixa contendo uma carta, escrita cinquenta anos antes. Depois de lê-la, e ciente da sua impossibilidade financeira e técnica de atender o pedido nela contido, ele a responde e a endereça ao próximo morador. Feito isso, a coloca na caixa de madeira e a devolve ao seu local de origem.

Anabele é uma jovem com belos olhos verdes que, aos 18 anos, vive sozinha com seu gato em uma casa afastada da cidade. Órfã de pai e de mãe, vê seus parcos recursos financeiros e sua despensa acabarem. Mas o que a deixa mais triste é a obra em seu terreno que seu pai, morto pela tuberculose, não pode terminar. Então, ela escreve uma carta endereçada ao futuro morador da casa – que será lida por Lucius, em 2014 -, pedindo que ele continue a construção da obra – uma montanha russa chamada Belleville.

Contrariando a lógica e todas as Leis da Física, Anabele encontra a carta de Lucius e a lê. Confusa e acreditando tratar-se de uma brincadeira de mau gosto, ela a responde para ver até onde a situação vai chegar. Lucius, por sua vez, a recebe. Perplexo e também acreditando se tratar de uma brincadeira, escreve a resposta. Começa a troca surreal de correspondência. Com o passar do tempo, os dois se apaixonam. E enquanto ele tenta tornar Belleville uma realidade, ela faz um dramático pedido de socorro. O perigo pode interromper o sonho.

Belleville é um daqueles raros romances que impedem o leitor de largar o livro antes do seu término porque tem uma história impactante. Seu ingrediente surreal – a comunicação entre duas pessoas separadas por 50 anos – corrobora as fortes emoções vivenciadas em cada página. Mais do que isso, é a parte fundamental da trama. Narrada na 1ª pessoa do singular, o que torna a leitura mais interessante, a saga de Lucius e Anabele é contada em capítulos alternados, mas sempre interligados.

Este é o quarto livro de Felipe Coubert, jovem escritor que usa romance e mistério – e também um elemento excepcional – em suas obras, como forma de prender a atenção do leitor. Embora o alvo de suas histórias seja o público jovem, elas agradam também os mais velhos exatamente pela qualidade dos seus enredos e das suas narrativas. São histórias que prendem, emocionam e fazem refletir. Belleville é assim. E nos mostra que há sempre uma palavra que nos une.

 

NOVEMBRO DE 63

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O que você faria se pudesse viajar no tempo? Passearia pela época visitada, matando sua curiosidade? Ou aproveitaria a oportunidade para alterar o passado e, consequentemente, mudar o futuro? Quem, entre nós, não adoraria ter a chance de corrigir um erro cometido ou trazer de volta a pessoa amada? Poderíamos até, por que não, mudar os políticos e fazer do nosso país um lugar justo e melhor para viver. Mas, alterar o passado garantiria um futuro melhor? Haveria consequências para a própria existência? Não há como prever.

 

Jake Epping é um professor de inglês na cidade de Lisbon Falls, no Maine, que viverá essa experiência. Certo dia, corrigindo redações no final do ano letivo, ele lê a do faxineiro da escola, também seu aluno, que escreveu sobre o dia em que o pai matou a família a marteladas e o deixou deficiente. Foi em 1958. Enquanto se refaz do choque, Jake recebe um telefonema de Al, o dono da sua lanchonete predileta. Com voz ruim e ansiosa, ele pede ao professor que o encontre com urgência.

 

Ao chegar na lanchonete, Jake leva um susto ao ver que o amigo está muito doente. Na noite anterior, não estava. Al lhe diz que tem câncer e pouco tempo de vida e que, por isso, precisa da sua ajuda para realizar uma missão muito importante, em 1963. Mas… Como, se estamos em 2011? Então, Al o leva até a dispensa e o convence a entrar nela. Com muita relutância, o professor obedece. Espantado, começa a descer degraus invisíveis e sai na mesma cidade. Só que em 1958.

 

Viagens no tempo não são novidade em livros e filmes. Ao contrário, vêm de longe e tem enredos absurdos. “Novembro de 63”, de Stephen King, é uma exceção. Transporta o personagem e o leitor para 1958 numa viagem tão plausível que poderia ser explicada pela ciência. Lá, Jake viverá uma história densa cheia de perigos, mistérios e incertezas, pois não se limitará apenas à missão que lhe foi confiada pelo amigo doente. Mas, alterar o passado pode trazer consequências imprevisíveis. Valerá a pena?

 

Stephen King, conhecido mestre do suspense, mais uma vez brinda o leitor com uma obra genial. Com sua linguagem simples e cativante, ele usa a viagem no tempo como pano de fundo para reviver a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a extinta União Soviética (hoje Rússia), a paranoia americana anticomunista e o fanatismo que levou ao assassinato do presidente americano John Kennedy. E, com sua capacidade de prender o leitor a cada página, nos mostra a década de 1960 com seus carrões, suas músicas e seus costumes.

 

Vale destacar a qualidade da edição brasileira, de propriedade da editora Suma de Letras. Sua capa é uma réplica de uma edição antiga do Daily News, um jornal americano, que dá ao livro uma beleza ímpar e nos instiga a explorar o seu conteúdo. “Novembro de 63” é, enfim, uma história perfeita. Tão fantástica, que “devoramos” o livro sem perceber suas mais de 700 páginas. Não li todos os livros de Stephen King, mas dentre os que li, este é sem dúvida o melhor.

VIDAS PROVISÓRIAS

 

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Vidas Provisórias” conta a história de Paulo, jovem torturado pela ditadura militar nos anos 70 e abandonado sem documentos na fronteira com o Chile; e de Bárbara, menor de idade que entra nos Estados Unidos com passaporte falso, na década de 1990, no governo de Fernando Collor. O que eles têm em comum? Ambos vivem um exílio forçado, ainda que por razões e circunstâncias diferentes.

 

Ele, depois de passar por Chile e Argentina, sempre fugindo dos horrores das ditaduras latino-americanas, é socorrido pela Anistia Internacional, na Suécia, onde tenta recomeçar sua vida. Ela, como a grande maioria dos brasileiros iludidos pela promessa de uma vida melhor, trabalha em subempregos, sempre quieta e com medo da polícia. Ambos sofrem, e muito, com as dores do passado e a imensa saudade do Brasil.

 

Neste trabalho impecável, Edney Silvestre mostra a luta de dois personagens fictícios que representam com fidelidade muitos brasileiros que viveram e vivem a situação de exilados políticos ou econômicos. O autor mostra também, valendo-se de sua experiência como correspondente internacional, fatos históricos importantes como as ditaduras militares no Brasil e no Chile, o atentado ao World Trade Center, e a Guerra do Golfo, entre outros.

 

O livro é bem escrito e a trama é bem montada. Os fatos históricos usados como pano de fundo se encaixam perfeitamente nas circunstâncias vividas pelos personagens. Aliás, não raro, o autor se utiliza deles para criticar e analisar as invasões promovidas pelos americanos, as ditaduras e os interesses econômicos, por exemplo, sempre numa linguagem clara e objetiva que prende a atenção do leitor.

 

Com excelente qualidade gráfica (sua capa é feita em papel-cartão especial), o livro é dividido em “O Livro de Paulo” e “O Livro de Bárbara”. Este, escrito com letras azuis; aquele, com letras pretas, dão ao conjunto um bonito visual. Mas nada disso seria importante se o livro não tivesse uma história que nos comovesse, que nos prendesse, que nos instruísse. São, enfim, duas belas histórias que nos fazem refletir e rever conceitos.

TREM NOTURNO PARA LISBOA

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Raimund Gregorius é um professor de línguas antigas que vive a enfadonha rotina de ir da casa para o trabalho e vice-versa. Certo dia, essa rotina é interrompida quando ele encontra uma mulher misteriosa que, encostada à mureta de uma ponte, joga fora um papel ao perceber sua presença. Pensando que ela cometeria suicídio, aproxima-se e inicia uma conversa. Ao perguntar-lhe qual a sua língua materna, ela responde: “Português”.

A mulher misteriosa acompanha o professor até o trabalho e vai embora em seguida, deixando-o confuso e desconcentrado, tendo em mente apenas a palavra de estranha sonoridade. No meio da aula, abandona a escola e perambula pela cidade até entrar em uma livraria, onde encontra um livro escrito por um homem português e que mudará sua vida. No dia seguinte, ele embarca em um trem com destino à Lisboa.

Em “Trem Noturno para Lisboa”, Pascal Mercier conta a história surreal de um professor solitário, que abandona casa e emprego para ir atrás de um escritor em um país cuja língua ele não conhece, mas que não é nenhum empecilho para a sua “investigação”, visto que todos os portugueses que ele encontra pelo caminho falam fluentemente francês ou inglês, idiomas que ele domina muito bem apesar de sua língua materna ser o alemão.

O livro não chega a ser ruim, mas na tentativa – diga-se, sem sucesso – de filosofar, o autor escreveu uma história cansativa e arrastada, que não empolga. Muitas de suas páginas são dedicadas à narrativa do livro do português de quem o professor Raimund foi à procura e cuja personalidade é o oposto da sua. Ainda assim, continuei a leitura na esperança de um final surpreendente que valesse o esforço. Mas concluí o livro, decepcionado.

OS BESTIALIZADOS

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No final do século XIX, um golpe militar derrubou a Monarquia e instaurou a República no Brasil sem qualquer participação popular, fato que decepcionou alguns dos defensores do novo regime. Segundo eles, o povo assistiu a tudo bestializado e por muito tempo permaneceu à margem de qualquer participação política, especialmente no Rio de Janeiro, capital e centro cultural do país. Seria uma visão preconceituosa de estrangeiros e de brasileiros elitistas ou culpa do próprio sistema?

O brasileiro não gostava de política, não se via como participante ativo do governo e não se sentia parte integrante e importante do Estado; mas era capaz de enfrentá-lo se julgasse que sua intromissão extrapolava certos direitos, especialmente morais e econômicos. A República, por não corresponder aos anseios do povo e por mantê-lo distante do processo eleitoral, ganhou sua apatia.

Neste livro, José Murilo de Carvalho, um dos mais importantes historiadores brasileiros, dá uma aula de sociologia. Com base em vasta documentação e com o auxílio de várias tabelas, ele mostra um panorama do Brasil do início do século passado, e explica as razões que levaram o brasileiro a ser tão apático à participação política, mas muito interessado nas associações, nas festas, no samba e no futebol.

Embora o livro dê um panorama do brasileiro que acabou de sair de uma Monarquia e entrar na República, o que nele está escrito – a linguagem é acadêmica, o que torna a leitura por vezes cansativa – pode ser aplicado ao brasileiro de hoje que, apesar de estar um pouco mais integrado ao governo, ainda está bestializado.