BRASIL: UMA BIOGRAFIA

Um país estranho, cheio de contradições, permanentemente instável e longe de amadurecer; um dos primeiros a introduzir a fotografia e o telefone, mas o último a abolir a escravidão; foi a única monarquia das Américas; teve um Imperador erudito numa terra de analfabetos e tem uma república que inaugurou a tradição golpista; é moderno em algumas regiões e absurdamente atrasado em outras. Seu nome: Brasil.

Este livro conta essa história. Não a dos livros chatos do MEC, cuja versão é sempre conveniente ao governo da vez, mas a verdadeira – aquela que moldou e continua moldando o caráter do povo brasileiro.

Trata-se de uma biografia que narra seu nascimento e seu crescimento conturbado, cheio de sofrimento, de lutas, de revoltas, de golpes, de censura e de assassinatos. Muitos assassinatos, fato que derruba o mito de que o povo brasileiro é pacífico. Mas conta também sobre suas conquistas, suas vitórias, seu progresso, suas artes, sua música e seu lento processo de democratização.

Heloísa Murgel Starling e Lilia Moritz Schwarcz escreveram este livro fascinante. Ele prende a atenção do leitor, mesmo que este não seja afeito à História do Brasil. Com linguagem fácil e rico em ilustrações, Brasil: uma biografia não se prende ao amontoado de datas como nos livros didáticos do ensino fundamental; explica com todos os detalhes o que é esse gigante chamado Brasil, um país cheio de contradições e de incertezas, mas que aos trancos e barrancos vai buscando a sua identidade.

1789 – A história de Tiradentes

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Nas aulas de História do meu tempo de escola, aprendi que Tiradentes foi um dentista barbudo que morreu enforcado em 21 de abril de 1792, traído por um tal de Joaquim Silvério dos Reis. Seu crime: tentar libertar o Brasil dos portugueses. Virou mártir e feriado nacional. E só. Os professores queriam que decorássemos datas e nomes de personagens. O por que dos fatos não importava. A consequência dessa forma de ensinar História era o total desinteresse do aluno, cansado da decoreba. Eu era um deles.

Muitos  anos se passaram até eu ter acesso a livros de História que, embora mencionassem datas e nomes de personagens (afinal, é importante), se preocupavam com os fatos. Ou seja: “por que aconteceu?” Sim, nenhuma revolução acontece sem ter um descontente; todo revolucionário age sob a influência de um fato ou de alguém. Afinal, a reação exige uma ação. Sem esta, aquela não tem razão de ser.

Foi seguindo essa linha que Pedro Doria escreveu 1789, que conta muito mais que a história de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Explica a Inconfidência Mineira; quem estava envolvido e por que se envolveu; e mostra os acontecimentos internacionais da época que influenciaram os inconfidentes. Eles queriam a independência de Minas Gerais, com o possível apoio do Rio de Janeiro e de São Paulo, e não a do Brasil inteiro, como se imagina.

1789 não é um livro chato. Conta uma parte importante da História do Brasil de uma forma que prende a atenção do leitor, deixando-o ansioso pelo desfecho mesmo sabendo que este será o enforcamento de Tiradentes. Ilustrado com fotos e mapas e apoiado na pesquisa séria em farta documentação, o livro de Doria nos faz compreender melhor um Brasil que ainda não deu certo, mas que melhorou muito graças a homens que arriscaram a própria vida por uma luta que não foi em vão.

NOVEMBRO DE 63

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O que você faria se pudesse viajar no tempo? Passearia pela época visitada, matando sua curiosidade? Ou aproveitaria a oportunidade para alterar o passado e, consequentemente, mudar o futuro? Quem, entre nós, não adoraria ter a chance de corrigir um erro cometido ou trazer de volta a pessoa amada? Poderíamos até, por que não, mudar os políticos e fazer do nosso país um lugar justo e melhor para viver. Mas, alterar o passado garantiria um futuro melhor? Haveria consequências para a própria existência? Não há como prever.

 

Jake Epping é um professor de inglês na cidade de Lisbon Falls, no Maine, que viverá essa experiência. Certo dia, corrigindo redações no final do ano letivo, ele lê a do faxineiro da escola, também seu aluno, que escreveu sobre o dia em que o pai matou a família a marteladas e o deixou deficiente. Foi em 1958. Enquanto se refaz do choque, Jake recebe um telefonema de Al, o dono da sua lanchonete predileta. Com voz ruim e ansiosa, ele pede ao professor que o encontre com urgência.

 

Ao chegar na lanchonete, Jake leva um susto ao ver que o amigo está muito doente. Na noite anterior, não estava. Al lhe diz que tem câncer e pouco tempo de vida e que, por isso, precisa da sua ajuda para realizar uma missão muito importante, em 1963. Mas… Como, se estamos em 2011? Então, Al o leva até a dispensa e o convence a entrar nela. Com muita relutância, o professor obedece. Espantado, começa a descer degraus invisíveis e sai na mesma cidade. Só que em 1958.

 

Viagens no tempo não são novidade em livros e filmes. Ao contrário, vêm de longe e tem enredos absurdos. “Novembro de 63”, de Stephen King, é uma exceção. Transporta o personagem e o leitor para 1958 numa viagem tão plausível que poderia ser explicada pela ciência. Lá, Jake viverá uma história densa cheia de perigos, mistérios e incertezas, pois não se limitará apenas à missão que lhe foi confiada pelo amigo doente. Mas, alterar o passado pode trazer consequências imprevisíveis. Valerá a pena?

 

Stephen King, conhecido mestre do suspense, mais uma vez brinda o leitor com uma obra genial. Com sua linguagem simples e cativante, ele usa a viagem no tempo como pano de fundo para reviver a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a extinta União Soviética (hoje Rússia), a paranoia americana anticomunista e o fanatismo que levou ao assassinato do presidente americano John Kennedy. E, com sua capacidade de prender o leitor a cada página, nos mostra a década de 1960 com seus carrões, suas músicas e seus costumes.

 

Vale destacar a qualidade da edição brasileira, de propriedade da editora Suma de Letras. Sua capa é uma réplica de uma edição antiga do Daily News, um jornal americano, que dá ao livro uma beleza ímpar e nos instiga a explorar o seu conteúdo. “Novembro de 63” é, enfim, uma história perfeita. Tão fantástica, que “devoramos” o livro sem perceber suas mais de 700 páginas. Não li todos os livros de Stephen King, mas dentre os que li, este é sem dúvida o melhor.

VIDAS PROVISÓRIAS

 

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Vidas Provisórias” conta a história de Paulo, jovem torturado pela ditadura militar nos anos 70 e abandonado sem documentos na fronteira com o Chile; e de Bárbara, menor de idade que entra nos Estados Unidos com passaporte falso, na década de 1990, no governo de Fernando Collor. O que eles têm em comum? Ambos vivem um exílio forçado, ainda que por razões e circunstâncias diferentes.

 

Ele, depois de passar por Chile e Argentina, sempre fugindo dos horrores das ditaduras latino-americanas, é socorrido pela Anistia Internacional, na Suécia, onde tenta recomeçar sua vida. Ela, como a grande maioria dos brasileiros iludidos pela promessa de uma vida melhor, trabalha em subempregos, sempre quieta e com medo da polícia. Ambos sofrem, e muito, com as dores do passado e a imensa saudade do Brasil.

 

Neste trabalho impecável, Edney Silvestre mostra a luta de dois personagens fictícios que representam com fidelidade muitos brasileiros que viveram e vivem a situação de exilados políticos ou econômicos. O autor mostra também, valendo-se de sua experiência como correspondente internacional, fatos históricos importantes como as ditaduras militares no Brasil e no Chile, o atentado ao World Trade Center, e a Guerra do Golfo, entre outros.

 

O livro é bem escrito e a trama é bem montada. Os fatos históricos usados como pano de fundo se encaixam perfeitamente nas circunstâncias vividas pelos personagens. Aliás, não raro, o autor se utiliza deles para criticar e analisar as invasões promovidas pelos americanos, as ditaduras e os interesses econômicos, por exemplo, sempre numa linguagem clara e objetiva que prende a atenção do leitor.

 

Com excelente qualidade gráfica (sua capa é feita em papel-cartão especial), o livro é dividido em “O Livro de Paulo” e “O Livro de Bárbara”. Este, escrito com letras azuis; aquele, com letras pretas, dão ao conjunto um bonito visual. Mas nada disso seria importante se o livro não tivesse uma história que nos comovesse, que nos prendesse, que nos instruísse. São, enfim, duas belas histórias que nos fazem refletir e rever conceitos.

TREM NOTURNO PARA LISBOA

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Raimund Gregorius é um professor de línguas antigas que vive a enfadonha rotina de ir da casa para o trabalho e vice-versa. Certo dia, essa rotina é interrompida quando ele encontra uma mulher misteriosa que, encostada à mureta de uma ponte, joga fora um papel ao perceber sua presença. Pensando que ela cometeria suicídio, aproxima-se e inicia uma conversa. Ao perguntar-lhe qual a sua língua materna, ela responde: “Português”.

A mulher misteriosa acompanha o professor até o trabalho e vai embora em seguida, deixando-o confuso e desconcentrado, tendo em mente apenas a palavra de estranha sonoridade. No meio da aula, abandona a escola e perambula pela cidade até entrar em uma livraria, onde encontra um livro escrito por um homem português e que mudará sua vida. No dia seguinte, ele embarca em um trem com destino à Lisboa.

Em “Trem Noturno para Lisboa”, Pascal Mercier conta a história surreal de um professor solitário, que abandona casa e emprego para ir atrás de um escritor em um país cuja língua ele não conhece, mas que não é nenhum empecilho para a sua “investigação”, visto que todos os portugueses que ele encontra pelo caminho falam fluentemente francês ou inglês, idiomas que ele domina muito bem apesar de sua língua materna ser o alemão.

O livro não chega a ser ruim, mas na tentativa – diga-se, sem sucesso – de filosofar, o autor escreveu uma história cansativa e arrastada, que não empolga. Muitas de suas páginas são dedicadas à narrativa do livro do português de quem o professor Raimund foi à procura e cuja personalidade é o oposto da sua. Ainda assim, continuei a leitura na esperança de um final surpreendente que valesse o esforço. Mas concluí o livro, decepcionado.

OS BESTIALIZADOS

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No final do século XIX, um golpe militar derrubou a Monarquia e instaurou a República no Brasil sem qualquer participação popular, fato que decepcionou alguns dos defensores do novo regime. Segundo eles, o povo assistiu a tudo bestializado e por muito tempo permaneceu à margem de qualquer participação política, especialmente no Rio de Janeiro, capital e centro cultural do país. Seria uma visão preconceituosa de estrangeiros e de brasileiros elitistas ou culpa do próprio sistema?

O brasileiro não gostava de política, não se via como participante ativo do governo e não se sentia parte integrante e importante do Estado; mas era capaz de enfrentá-lo se julgasse que sua intromissão extrapolava certos direitos, especialmente morais e econômicos. A República, por não corresponder aos anseios do povo e por mantê-lo distante do processo eleitoral, ganhou sua apatia.

Neste livro, José Murilo de Carvalho, um dos mais importantes historiadores brasileiros, dá uma aula de sociologia. Com base em vasta documentação e com o auxílio de várias tabelas, ele mostra um panorama do Brasil do início do século passado, e explica as razões que levaram o brasileiro a ser tão apático à participação política, mas muito interessado nas associações, nas festas, no samba e no futebol.

Embora o livro dê um panorama do brasileiro que acabou de sair de uma Monarquia e entrar na República, o que nele está escrito – a linguagem é acadêmica, o que torna a leitura por vezes cansativa – pode ser aplicado ao brasileiro de hoje que, apesar de estar um pouco mais integrado ao governo, ainda está bestializado.

VIAGENS DE UMA PSICÓLOGA EM CRISE

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Há momentos em que ficamos insatisfeitos com o rumo de nossas vidas. Faculdade, trabalho, lazer, tudo parece muito chato. É a tal da crise existencial que, quando se instala, nos obriga a tomar uma atitude. Uma delas, procurar um psicólogo. Mas também ele, o psicólogo, está sujeito a crises, ao contrário do que imaginamos. Afinal, é um ser humano comum.

A psicóloga Graziela não ficou imune à crise, colocando até a faculdade em dúvida. Precisava tomar uma atitude. E tomou. Viajou para a Índia, país de cultura e hábitos radicalmente opostos aos seus, onde sofreu bastante com a falta de tudo – ou de quase tudo. Mas o choque cultural que se propôs a ter – e teve – foi também um grande ensinamento.

Em seu livro de estreia, Graziela Bergamini conta de forma bem humorada a sua crise e sua viagem, verdadeira aventura no mundo desconhecido. Os capítulos alternam passagens hilárias, quase inacreditáveis, com reflexões sérias sobre temas como espiritualidade e autoestima.

Sua autora mostra coragem ao admitir sua crise existencial, provando que todos nós precisamos nos reavaliar e nos reciclar, inclusive os psicólogos. Viagens de uma Psicóloga em Crise é um livro muito interessante, divertido, fácil e despretensioso.

F I M

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Álvaro, Ciro, Neto, Ribeiro e Sílvio. Cinco homens que se conhecem na década de 1960 e se tornam amigos. Mais: tornam-se irmãos. Juntos, se divertem; se admiram; se acusam. Juntos, aprontam – como aprontam, aliás, todos os amigos quando se juntam.

Os cinco amigos casam, separam, se afastam. Envelhecem, mas insistem em burlar o tempo que não perdoa ninguém. Praia, mulheres, drogas e festas continuam fazendo parte de suas vidas. Mas tudo, cedo ou tarde, chega ao FIM.

Escrita por Fernanda Torres, famosa atriz, e ambientada no Rio de Janeiro, a história começa interessante pelo próprio título. Ela usa de forma inteligente e muito atraente as palavras e o tempo. Com rara maestria e sua peculiar ironia, desnuda as almas masculina e feminina, provocando risos em algumas passagens e reflexão em outras. 

Acostumada a atuações impecáveis, Fernanda Torres também escreve de forma impecável. FIM é, em suma, a reflexão bem humorada sobre a finitude da vida.

O PRÍNCIPE MALDITO

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O Poder. Quem não o quer? Guerras e genocídios aconteceram – e ainda acontecem – só para mantê-lo ou conquistá-lo. Há também os que não mataram e não provocaram conflitos armados, mas conspiraram. Foi o caso do príncipe Pedro Augusto Saxe e Coburgo, neto de D. Pedro II e sobrinho da princesa Isabel, simplesmente a legítima herdeira do trono brasileiro. 

Filho da irmã da “Redentora” dos escravos, Pedro Augusto queria a todo custo ser D. Pedro III, passando por cima de tudo e de todos, inclusive da Constituição. A ideia fixa do príncipe deixava o avô numa situação incômoda, pois embora confiasse no neto favorito, não queria ver sua filha fora do trono, mesmo sabendo ser ela e o marido detestados.

Essa é a história real do conflito familiar envolvendo os tios e o sobrinho na busca do trono do terceiro reinado do Brasil, que continuou mesmo depois da  Proclamação da República e da consequente expulsão da Família Imperial do país, gerando mais ódio e conspiração. 

Tendo como pano de fundo a Guerra do Paraguai, a Abolição da Escravidão, a queda do Império e a Proclamação da República, o livro conta a história de um personagem que as aulas de História do Brasil do nosso tempo de escola não nos apresentaram: um príncipe mentalmente perturbado que odiava os tios e que se aliou aos seus desafetos para conspirar e virar Imperador.

Excelente historiadora e competente escritora, Mary Del Priore usa a forma romanceada que leva o leitor para dentro da história, fazendo com que este viva os fatos e sinta as emoções. Não raro, flagramo-nos torcendo para esse ou aquele personagem, mesmo sabendo que o final não será feliz. É a História do Brasil contada em um dos melhores livros que eu já li.

HISTÓRIAS ÍNTIMAS – sexualidade e erotismo na história do Brasil

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Em 1500, Pedro Álvares Cabral e sua comitiva chegaram à terra que seria batizada de Brasil e encontraram índios, nus e limpos. Não houve excitação; não houve erotismo. Ao contrário, os portugueses os viram como “animais ingênuos”. Enquanto isso, na Europa, artistas retratavam o nu – pura arte poética, nenhuma conotação erótica.

No século XVIII, praticava-se o sexo no mato, pois dentro das casas a falta de um artigo caríssimo, a fechadura, impedia qualquer privacidade. Numa época na qual a Igreja regulava até as relações sexuais entre marido e mulher, era na missa que casais se encontravam. E lá, aproveitando a parca iluminação e os lugares bem escondidinhos, transavam.

A visão dos seios não excitava; mas a dos pezinhos, única parte feminina nua, sim. Quanto mais roupa a mulher usasse, mais interesse causaria no sexo oposto. Casais devidamente casados iam para a cama cheios de ordens da Igreja: sexo era para procriar (crescei e multiplicai). Tirar a roupa, nem pensar. Prazer? Só para os homens.

Mary Del Priore, conceituada historiadora, conta essa história, com detalhes, em seu livro “Histórias Íntimas – sexualidade e erotismo na história do Brasil”. Nele, a autora revela a relação entre homens e mulheres, família e Igreja, tabus e hábitos, machismo e feminismo, fidelidade e adultério, filhos legítimos e ilegítimos, escravas e senhores.

Com linguagem fácil e esclarecedora – e por vezes irônica, “Histórias Íntimas” foi escrito por quem sabe tornar agradáveis assuntos que em outras mãos seriam chatos. O livro também conta com ilustrações divertidas, que mostram de um jeito bem humorado a evolução da nossa sexualidade e do nosso erotismo.