VIAGENS DE UMA PSICÓLOGA EM CRISE

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Há momentos em que ficamos insatisfeitos com o rumo de nossas vidas. Faculdade, trabalho, lazer, tudo parece muito chato. É a tal da crise existencial que, quando se instala, nos obriga a tomar uma atitude. Uma delas, procurar um psicólogo. Mas também ele, o psicólogo, está sujeito a crises, ao contrário do que imaginamos. Afinal, é um ser humano comum.

A psicóloga Graziela não ficou imune à crise, colocando até a faculdade em dúvida. Precisava tomar uma atitude. E tomou. Viajou para a Índia, país de cultura e hábitos radicalmente opostos aos seus, onde sofreu bastante com a falta de tudo – ou de quase tudo. Mas o choque cultural que se propôs a ter – e teve – foi também um grande ensinamento.

Em seu livro de estreia, Graziela Bergamini conta de forma bem humorada a sua crise e sua viagem, verdadeira aventura no mundo desconhecido. Os capítulos alternam passagens hilárias, quase inacreditáveis, com reflexões sérias sobre temas como espiritualidade e autoestima.

Sua autora mostra coragem ao admitir sua crise existencial, provando que todos nós precisamos nos reavaliar e nos reciclar, inclusive os psicólogos. Viagens de uma Psicóloga em Crise é um livro muito interessante, divertido, fácil e despretensioso.

F I M

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Álvaro, Ciro, Neto, Ribeiro e Sílvio. Cinco homens que se conhecem na década de 1960 e se tornam amigos. Mais: tornam-se irmãos. Juntos, se divertem; se admiram; se acusam. Juntos, aprontam – como aprontam, aliás, todos os amigos quando se juntam.

Os cinco amigos casam, separam, se afastam. Envelhecem, mas insistem em burlar o tempo que não perdoa ninguém. Praia, mulheres, drogas e festas continuam fazendo parte de suas vidas. Mas tudo, cedo ou tarde, chega ao FIM.

Escrita por Fernanda Torres, famosa atriz, e ambientada no Rio de Janeiro, a história começa interessante pelo próprio título. Ela usa de forma inteligente e muito atraente as palavras e o tempo. Com rara maestria e sua peculiar ironia, desnuda as almas masculina e feminina, provocando risos em algumas passagens e reflexão em outras. 

Acostumada a atuações impecáveis, Fernanda Torres também escreve de forma impecável. FIM é, em suma, a reflexão bem humorada sobre a finitude da vida.

O PRÍNCIPE MALDITO

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O Poder. Quem não o quer? Guerras e genocídios aconteceram – e ainda acontecem – só para mantê-lo ou conquistá-lo. Há também os que não mataram e não provocaram conflitos armados, mas conspiraram. Foi o caso do príncipe Pedro Augusto Saxe e Coburgo, neto de D. Pedro II e sobrinho da princesa Isabel, simplesmente a legítima herdeira do trono brasileiro. 

Filho da irmã da “Redentora” dos escravos, Pedro Augusto queria a todo custo ser D. Pedro III, passando por cima de tudo e de todos, inclusive da Constituição. A ideia fixa do príncipe deixava o avô numa situação incômoda, pois embora confiasse no neto favorito, não queria ver sua filha fora do trono, mesmo sabendo ser ela e o marido detestados.

Essa é a história real do conflito familiar envolvendo os tios e o sobrinho na busca do trono do terceiro reinado do Brasil, que continuou mesmo depois da  Proclamação da República e da consequente expulsão da Família Imperial do país, gerando mais ódio e conspiração. 

Tendo como pano de fundo a Guerra do Paraguai, a Abolição da Escravidão, a queda do Império e a Proclamação da República, o livro conta a história de um personagem que as aulas de História do Brasil do nosso tempo de escola não nos apresentaram: um príncipe mentalmente perturbado que odiava os tios e que se aliou aos seus desafetos para conspirar e virar Imperador.

Excelente historiadora e competente escritora, Mary Del Priore usa a forma romanceada que leva o leitor para dentro da história, fazendo com que este viva os fatos e sinta as emoções. Não raro, flagramo-nos torcendo para esse ou aquele personagem, mesmo sabendo que o final não será feliz. É a História do Brasil contada em um dos melhores livros que eu já li.

HISTÓRIAS ÍNTIMAS – sexualidade e erotismo na história do Brasil

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Em 1500, Pedro Álvares Cabral e sua comitiva chegaram à terra que seria batizada de Brasil e encontraram índios, nus e limpos. Não houve excitação; não houve erotismo. Ao contrário, os portugueses os viram como “animais ingênuos”. Enquanto isso, na Europa, artistas retratavam o nu – pura arte poética, nenhuma conotação erótica.

No século XVIII, praticava-se o sexo no mato, pois dentro das casas a falta de um artigo caríssimo, a fechadura, impedia qualquer privacidade. Numa época na qual a Igreja regulava até as relações sexuais entre marido e mulher, era na missa que casais se encontravam. E lá, aproveitando a parca iluminação e os lugares bem escondidinhos, transavam.

A visão dos seios não excitava; mas a dos pezinhos, única parte feminina nua, sim. Quanto mais roupa a mulher usasse, mais interesse causaria no sexo oposto. Casais devidamente casados iam para a cama cheios de ordens da Igreja: sexo era para procriar (crescei e multiplicai). Tirar a roupa, nem pensar. Prazer? Só para os homens.

Mary Del Priore, conceituada historiadora, conta essa história, com detalhes, em seu livro “Histórias Íntimas – sexualidade e erotismo na história do Brasil”. Nele, a autora revela a relação entre homens e mulheres, família e Igreja, tabus e hábitos, machismo e feminismo, fidelidade e adultério, filhos legítimos e ilegítimos, escravas e senhores.

Com linguagem fácil e esclarecedora – e por vezes irônica, “Histórias Íntimas” foi escrito por quem sabe tornar agradáveis assuntos que em outras mãos seriam chatos. O livro também conta com ilustrações divertidas, que mostram de um jeito bem humorado a evolução da nossa sexualidade e do nosso erotismo.

D. PEDRO II

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Um adolescente solitário e amante dos livros, criado para governar, assume o poder da maior nação da América do Sul. Aos 15 anos de idade, incompletos, D. Pedro II é coroado Imperador do Brasil. Irresponsável? Não. Ao contrário, será o governante mais consciente, honesto e nacionalista que o país já teve.

Órfão de mãe e abandonado pelo pai, o imperador D. Pedro I – que abdicou do trono e voltou para Portugal, o menino Pedro foi criado por tutores que lhe deram educação esmerada, preparando-o para cuidar de uma nação também órfã.

Foram muitas as dificuldades. Guerras separatistas, pressões da elite para manter a escravidão, e a ferrenha oposição a favor do fim do império. Apesar de tudo, D. Pedro II conseguiu abolir a escravidão e manter a unidade do país. Mas não conseguiu evitar a queda da monarquia.

José Murilo de Carvalho, um dos melhores historiadores e professores do país, conta a vida e a obra de um ser humano fantástico que fez de tudo para ser um servidor público exemplar.  Com linguagem clara e objetiva, o livro contém ilustrações e documentos que o enriquecem ainda mais. Leitura obrigatória para quem ama História e biografias. E também para aqueles que nem sabem por que são brasileiros.

TRILOGIA 1808 – 1822 – 1889

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Em 1808, chega ao Brasil a família imperial portuguesa, fugindo da guerra de Napoleão. D. João VI, o Príncipe Regente, promove seu primeiro ato em solo brasileiro: a abertura dos portos às nações amigas (leia-se Inglaterra, país que os ajudou na fuga). É o início do progresso da colônia, que teve sua vida estagnada por longos trezentos anos graças às inúmeras proibições da Coroa Portuguesa.

Em 1822, o destemido, autoritário e mulherengo D. Pedro I (filho de D. João VI) proclama a independência do Brasil, livrando-o do julgo português. Mas não será fácil mantê-la. A custo de muito sangue e de muito dinheiro, dando início ao endividamento brasileiro, a nossa “autonomia” será garantida.

Em 1889, depois de 49 anos de reinado, D. Pedro II (filho de D. Pedro I) é escorraçado do Brasil junto com sua família, por um grupo de golpistas militares. É o começo da República.

Nessa trilogia, nascida de sérias e intensas pesquisas, Laurentino Gomes conta a História do Brasil desde a chegada de D. João VI às terras tupiniquins até os primeiros anos da república. Com linguagem fácil e atraente e ricamente ilustrados, os três livros prendem a atenção do leitor por contar a História de uma forma inteligente e dinâmica, fazendo-nos compreender o “por que”, ao contrário dos livros didáticos, que insistem na “decoreba” de datas.

AMORES PROIBIDOS NA HISTÓRIA DO BRASIL

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Todos nós, na escola, estudamos a História do Brasil. Aprendemos que Chica da Silva foi uma escrava famosa; que D. Pedro I proclamou a Independência do Brasil; que Anita Garibaldi foi uma heroína; que Joaquim Nabuco foi um abolicionista.

Não raro, saímos da escola imaginando que esses personagens históricos foram perfeitos e, por isso, são imortais. Nunca pensamos terem sido normais, essas pessoas – que riram, choraram, venceram, perderam… e amaram.

AMORES PROIBIDOS NA HISTÓRIA DO BRASIL, de Maurício Oliveira, humaniza esses personagens nos contando, numa linguagem fácil e deliciosa, sobre os amores conturbados vividos intensamente por personagens importantes da nossa História. Adultérios, incompatibilidade de ideias, separações, ideologias acima da vida familiar… Tudo isso em uma época na qual a sociedade era conservadora e defensora dos “bons costumes”.

O autor, no entanto, não se limita a descrever apenas os casos amorosos; melhor que isso, ele faz questão de evidenciar o contexto histórico, incluindo uma pequena biografia dos personagens envolvidos. Ou seja: enquanto lemos o que poderia ser chamado de romance, aprendemos um pouco mais sobre a História do Brasil.

Um livro muito interessante, gostoso de ler, que enriquece a nossa cultura.

O CEMITÉRIO DE PRAGA

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Simone Simonini é um mau-caráter que “fabrica” documentos diversos e os vende a quem se interessar. E para agradar a gregos e troianos, é capaz de fazer várias versões dos mesmos. O importante é ganhar muito dinheiro – dos dois lados, naturalmente.

Com esse perfil e essa “profissão”, o único personagem inventado por Umberto Eco, que há 30 anos escreveu “O NOME DA ROSA”, infiltra-se em serviços secretos, maçonaria, ordens jesuíticas, manifestações e revoluções. Sempre com o intuito de servir aos dois lados. Sempre. E não duvidem de sua disposição para usar todos os meios necessários para proteger seus negócios.

A guerra de Garibaldi pela unificação da Itália; Os Protocolos dos Sábios de Sião, textos antissemitas que serviram de inspiração para Hitler; a morte do escritor Ippolito Nievo; falsos documentos que incriminam um oficial do exército; e muito mais… Todos os fatos narrados neste livro, e vivenciados por Simonini, aconteceram realmente; e seus personagens existiram e fizeram aquilo que lhes é atribuído.

Umberto Eco, com sua fértil imaginação e enorme capacidade narrativa, não só coloca seu fictício Simonini dentro dos acontecimentos reais do século XIX, mas, acima de tudo, o faz autor – ou coautor –  dos fatos que influenciaram de forma negativa a História.

O CEMITÉRIO DE PRAGA é um livro empolgante, escrito em linguagem impecável, que conta estórias de complôs, falsificações, ódio, preconceito, traições e crimes. Ou seja, fatos que acontecem diariamente no mundo atual.

O CAÇADOR DE PIPAS

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Nos últimos meses li alguns livros. Todos bons. Mas nenhum tão intenso e emocionante como O CAÇADOR DE PIPAS, de Khaled Hosseini, que fala de amizade, dedicação e fidelidade; mas também de inveja, traição e sofrimento. Não pensem que por conter tais ingredientes, trata-se de uma novela mexicana. Nada disso.

A história tem como pano de fundo o Afeganistão da década de 70; na ocasião, ainda um país tranqüilo com problemas comuns ao terceiro mundo. Em sua capital, Cabul, vivem dois garotos com personalidades e situação financeira diametralmente opostas, mas amigos inseparáveis.

Amir é filho de um homem rico e próspero; estuda e lê bons livros; mas amarga a falta de carinho do pai. Hassan é pobre e, junto com seu pai, é empregado da casa de Amir. Analfabeto e sem nenhuma perspectiva de vida, é feliz pela companhia do amigo rico. De coração generoso e resignado, sujeita-se a diversas humilhações em nome da amizade.

Os dois têm uma paixão em comum: soltar e caçar pipas.  E foi exatamente num campeonato de pipas que Amir viu a possibilidade de ganhar seu prêmio mais valioso: a atenção e o carinho do pai. A vitória é conquistada, mas ao custo de um grande ato de covardia, fato que fez sua relação com o fiel amigo tomar outros rumos.

O tempo passa e de repente a vida tranqüila do Afeganistão é interrompida pela invasão da União Soviética, país cujo regime comunista entrou em decadência e teve seu fim decretado com a queda do muro de Berlim, em 1989.

A guerra faz com que muitos afegãos ricos e importantes fujam de seu país; entre eles, Amir e seu pai. Vivendo nos Estados Unidos, Amir consegue tudo o que queria: o amor do pai, o sucesso na carreira profissional e o casamento com a bela mulher que amava. Mas uma culpa lhe atormenta a alma; a ferida aberta naquele longínquo campeonato de pipas. Até que um dia, anos e anos mais tarde, um breve telefonema lhe dá a chance de cicatrizá-la.

Ao mesmo tempo em que conta uma história cheia de emoção, enaltecendo o lado bom de cada pessoa, Hosseini fala do Afeganistão e de seu povo massacrado pelos soviéticos e, em seguida, pelo fanático governo Talibã – aquele mesmo que apoiou Osama Bin Laden.

O CAÇADOR DE PIPAS está muito longe de ser um melodrama. É, antes de tudo, uma história de amor, fé e amizade. E de redenção… também.

ELITE DA TROPA

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Não é de hoje que a imagem da instituição policial é a pior possível diante dos olhos dos brasileiros. Poucos cidadãos, geralmente os mais abastados, ainda confiam nessa classe campeã em assassinatos e crimes diversos.

Nada a estranhar então, que eu me interessasse em comprar um livro escrito por dois ex-policiais militares. Queria mesmo ver tudo como se eu fosse um deles. Cheguei a pensar que iria ler uma historinha protegendo a honra dos defensores da Lei e da ordem, desmentindo tudo aquilo que se ouve, se vê e se lê no dia a dia.

Surpreendi-me! Dividido em duas partes, o livro conta a trajetória e a rotina de trabalho do BOPE, o Batalhão de Operações Policiais Especiais, subordinado ao Comando Geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

Na primeira parte, intitulada DIÁRIO DA GUERRA, o ex-policial formado em Direito pela PUC-RJ conta como foi o seu ritual de entrada no BOPE – um verdadeiro treinamento de guerra. Só os melhores são aprovados para formar um batalhão especializado em guerrilha urbana, como é o caso do tráfico de drogas nas favelas do Rio.

Escolhidos sob rigorosa tortura física e psicológica (em outras palavras, treinados para matar primeiro e perguntar depois), os homens do BOPE orgulham-se de sua farda negra e do seu símbolo: uma caveira. Garantem ser incorruptíveis, argumentando que suborno algum paga o privilégio de pertencer à elite da tropa. O capitão conta ainda casos vividos ao longo de sua carreira, revelando com requinte de detalhes os métodos nada convencionais utilizados na captura e no assassinato de suspeitos. E deixa bem claro o seu desprezo – e o dos colegas – pelo que ele chama de polícia convencional: a militar comum e os civis.

Na segunda parte,  intitulada DOIS ANOS DEPOIS: A CIDADE BEIJA A LONA, o narrador segue uma trama  na qual policiais, políticos, secretário de segurança, governador, bandidos e espiões se entrelaçam num jogo sujo por dinheiro e poder.

Com linguagem simples e empolgante, ANDRÉ BATISTA –  o capitão da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e ex-integrante do BOPE – escancara tudo aquilo que o povo comum das periferias sabe de cor e salteado: que os negros e favelados são sempre os alvos prediletos de qualquer policial; que os loirinhos de olhos azuis, os “filhinhos-de-papai”, nunca são revistados ou perturbados; que a polícia mata adolescentes sem dó nem piedade e que tortura cruelmente para arrancar informações que, desde que sejam úteis, podem ou não ser inventadas.

O livro atinge o seu objetivo: fazer o leitor enxergar a situação com olhos de policial de elite. Em várias passagens, senti calafrios ao “caminhar com a tropa” em vielas escuras e traiçoeiras, vigiadas por traficantes que não temem a morte.

O próprio autor conta como ele e alguns de seus colegas passaram noites dormindo à base de calmantes de tarja preta, horrorizados com as próprias atrocidades cometidas. E diz como foi duro passar madrugadas em incursões perigosas nas grandes favelas cariocas, e manhãs cansativas na PUC-RJ ouvindo professores falarem mal de policiais.

A minha opinião sobre a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro não mudou depois de ler o livro. Quem me conhece sabe bem disso. Mas o Capitão Batista me fez entender as razões pelas quais os policiais são o que são. Muitos querem e até são honestos… mas não por muito tempo. Porque os podres poderes não permitem. Ser um bom policial é nada fácil! Especialmente no Estado do Rio de Janeiro.